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Cris Reis

O que é Certo ou Errado?

O que é Certo ou Errado?
22 junho 08:03 2020 Imprimir notícia
Colunista

Ao final de 2019 eu indaguei algumas pessoas sobre isso. Gosto de fazer provocações quando quero elaborar um texto para o meu site ou roteiro para vídeos nas minhas redes sociais. Confesso que achei engraçado comentários que se encerravam em “o que é certo é certo e o que é errado é errado, não existe meio termo!”, rs. E, antes que você me pergunte,  “qual autoridade você tem para dizer o que é certo ou errado?”, quero informar que farei contigo essa análise a luz de três importantes referências:  a filosófica,  a antropológica e a neurocientífica. Tudo bem assim?

“Quem fala, fala de algum lugar!” Lembro-me bem de uma professora na faculdade que nos dizia que ao opinar sobre qualquer assunto, o indivíduo estaria expondo as suas ideias a partir das suas experiências de vida, daquilo que apreendeu dos sistemas familiar, religioso, econômico do qual fez ou faz parte, sob o viés dos seus gostos e preferências, do seu contexto etário, etc. Imagina-se que, se ouvíssemos hoje a gravação de um diálogo ocorrido no início do século passado sobre os direitos e deveres de homens e mulheres, certamente pensaríamos ser errado a maneira como a sociedade da época lidava com as relações sociais. Claro, estamos analisando por um recorte geracional.

Para trazer para a contemporaneidade, fica fácil entender quando ouvimos da nossa mãe a expressão “eu sou sua mãe, eu sei o que é bom ou mau pra você!”, ou ainda, “quando você for mãe (ou pai) você vai me dar razão”, isto é, segundo este ponto de vista, quem vive ou viveu visceralmente experiências específicas estaria legitimado a levantar e defender alguma causa específica e, sobretudo afirmar o que é bom ou ruim, certo ou errado para o grupo que representa.

Na filosofia, ninguém trouxe-me algo mais prático sobre ética e moral, que o alemão Inmanuel Kant, que nos sugere um caminho possível para pensarmos sobre a melhor forma de proceder. Quando escreveu “O Imperativo Categórico” diz que toda pessoa deve agir conforme princípios dos quais considera que seriam benéficos caso fossem seguidos por todos os seres humanos. Vou exemplificar.

Para sabermos se algo é certo ou errado, imaginemos que um motorista, justificando estar com pressa, ultrapassa o sinal vermelho. É possível que alguém diga que uma única pessoa ao fazê-lo, não estaria infringindo grande mal às outras pessoas.

Porém, se utilizarmos como parâmetro a proposta de Kant, fatalmente seríamos levados ao seguinte raciocínio: se todos os motoristas resolvessem não mais respeitar o sinal vermelho, seria correto? Havemos de concordar que não, não seria! Conclui-se que, se alguma ação ao tornar-se lei universal fizer bem à todas as pessoas, esta ação é, conforme o princípio ético do filósofo, correta.

A terceira perspectiva sobre o dilema certo ou errado diz respeito aos conceitos antropológicos do relativismo cultural e o estranhamento étnico. Quem já viu as mulheres girafas, na Tailândia, certamente espantou-se com aquelas argolas empilhadas e aqueles pescoços enormes. Nosso cérebro, que a todo o tempo busca padrões de semelhança entre as formas que lhe são apresentadas, não encontra padrão correspondente e tende a rejeitar o que está vendo.

E não para por aí. Estranhamos tudo o que não se assemelha aos costumes da sociedade em que estamos inseridos e, por vezes, inferimos ser mais correto agir e pensar da forma como pensam os membros do grupo ao qual pertencemos. Ao agruparmos interesses comuns, sustentamos a ideia de proteção e perpetuação dos grupos identitários.

 Então, eu gostaria de te perguntar: deveríamos parar de nos deliciar com o churrasquinho no fim de semana, visto que na Índia a vaca é um animal sagrado? Ou ainda, seria certo lutarmos pelo direito a andarmos nus, como os índios, mas em ambiente urbano? É relativo, concorda? A reverência ao animal é um traço cultural, que mesmo nos causando estranhamento, é normal, corriqueiro e aconselhável para aquele povo, assim como temos os nossos códigos. Mas, afinal, quem está correto?

Lamento, mas essa é uma sentença que nunca resolveremos. Temos a tendência de procurar as nossas verdades sob a perspectiva do nosso olhar, do que não nos contraria, das ideias que nos trazem conforto e nos parecem usuais.

Ao criticarmos o que nos causa estranheza, o que nos parece inadequado, estamos buscando “tornar normal” algum comportamento, ou alguém conforme a nossa maneira de ver o mundo, desrespeitando o outro e as suas preferências, gostos e desejos.

Penso, portanto, que o mais adequado seria pensarmos sobre respeito às diferentes vivências e sobre a procura individual por aquilo que lhe cai bem. Darmos cada vez mais espaço ao novo, experimentarmos, deixando que as leis nos sirvam de base para a manutenção da ordem e a garantia dos direitos, mas que ninguém possa nos tolher de forma irrefletida e nem nos condenar por ser quem somos.

CRIS REIS

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