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"Depois de minha filha tentar suicídio 2 vezes, descobri que era abusada pelo meu ex"

"Depois de minha filha tentar suicídio 2 vezes, descobri que era abusada pelo meu ex"
28 setembro 21:19 2020 Imprimir notícia
Brasil

“Engravidei pela primeira vez aos 17 anos. Foi um enorme susto, só contei em casa que ia ter neném quando estava completando cinco meses de gestação. Não tive o apoio do pai biólogico da criança, mas minha família me ajudou em tudo. Estava no terceiro ano do ensino médio quando Gabriela* nasceu, numa noite chuvosa de quarta-feira, primeiro dia da primavera. Linda, perfeita, minha princesa. No Réveillon daquele ano, um vizinho puxou conversa comigo. Perguntou se aquela bebezinha era minha, disse que sempre havia me observado e que queria ser meu amigo. Aceitei a amizade de Reinaldo*, mas logo percebi que ele estava gostando de mim. Levava presentes para Gabriela, vivia na minha casa e, a cada dia, demonstrava mais sua intenção de me namorar. Foi aí que minha mãe me disse a frase que mudou tudo na minha vida: ‘Com uma filha para criar, provavelmente você nunca vai encontrar um homem que lhe queira, então, fique com ele’.

Nova e com medo de ficar sozinha, acabei topando. E me acomodei à situação. Reinaldo era um cara bacana, trabalhador, tratava minha filha muito bem. Não sentia amor, mas gratidão por ele ser especial e cuidar da gente.

O namoro virou casamento dois anos depois, quando a empresa em que ele trabalhava mudou-se para Indaiatuba, e Reinaldo, como encarregado, me chamou para morarmos junto.

Nossa vida em Indaiatuba era muito boa. Ele trabalhava e eu cuidava da casa e de Gabriela. Com a vida estabilizada, quando completei 24 anos, decidi ter mais um filho. Dessa vez, a gravidez foi muito planejada. Em abril de 2005, Maria Lucia* chegou para completar nossa família. No fim do ano seguinte, no entanto, Reinaldo resolveu sair do emprego e montar o próprio negócio. E aí as coisas começaram a complicar para a gente. Tivemos que nos mudar para o Interior e viver com meus pais por um período. Depois, voltamos para São Paulo, onde comecei a trabalhar numa empresa que fazia cestas de Natal. Trabalhando, redescobri meu valor. Me vi independente, comecei um curso de auxiliar de enfermagem e logo iniciei a faculdade.

Reinaldo, por sua vez, parou no tempo. Não conseguiu abrir o negócio, mas não queria e não aceitava trabalhar para os outros. Nessa época, nos separamos e voltei para a casa dos meus pais. Mas ele não aceitou. Infernizou minha vida, colocando Gabriela, então com 10 anos contra mim. De uma hora para outra, ela se tornou uma criança agressiva. A pressão foi tanta que voltei a morar com ele. O ano era 2008.

Apesar de dividir o mesmo teto, eu não sentia nada por ele e não tínhamos mais uma vida conjugal. Vivemos juntos até março de 2011, quando, decidida, pedi que ele saísse da minha casa. Em junho desse mesmo ano, conheci Carlos, um homem incrível, que me ajuda, me apoia, cuida das minhas filhas com um carinho enorme e viria a se tornar o grande amor da minha vida. Nunca deixei, no entanto, que meu relacionamento afetasse o de Reinaldo com as meninas. E Gabriela, que o considerava pai, o visitava regularmente.

O tempo foi passando; e os problemas de minha filha mais velha com depressão davam sinais cada vez mais claros. Até que, em julho de 2019, quando ela estava visitando o pai, recebi uma ligação de um tio dela dizendo que ela havia tentado suicídio e estava internada. Meu mundo caiu, perdi meu chão. Corri para o hospital e Reinaldo estava lá, me pedindo forças e dizendo que juntos iríamos ajudar nossa filha. Mal sabia eu, que era ele o responsável por todo aquele sofrimento.

Gabriela começou tratamento com psiquiatra e terapeuta, e tentamos continuar a vida. Dois meses depois, no entanto, exatamente dois dias após ela completar 21 anos, veio a segunda tentativa. Lembro de ter dito ao meu marido que ela não queria mais viver por alguma razão que eu desconhecia, mas que não desistiria dela.

No dia seguinte, minha caçula, agora com 15 anos, me mandou uma mensagem dizendo que conversar seriamente comigo quando eu chegasse em casa. Estava com Gabriela no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), nervosa com toda a situação, e pedi que ela adiantasse o assunto. E recebi a pior notícia da minha vida: Gabriela havia mandado vários áudios para uma amiga relatando os abusos sofridos pelo Reinaldo, desde o início de sua adolescência. Segundo dizia, a primeira tentativa de suicídio foi na casa do pai porque queria que ele sentisse a dor dela por tudo que tinha feito.

Senti nojo, raiva, mal consegui ouvir todos os áudios. Atordoada, não me conformava de, tantas vezes, tê-la obrigado a visitar aquele monstro. Eu, que sempre lutei para que eles mantivesse uma relação de pai e filha. Depois de Indaiatuba, ele nunca mais saiu da casa dos pais, nunca mais se levantou financeiramente. Então, para mim, as meninas eram um porto de paz para Reinaldo, e eu jamais tiraria isso dele.

Desde então, não tenho notícias de Reinaldo, que ainda me acusou de estar tentando afastar as meninas dele quando o confrontei. Nem quero. Maria Lucia se afastou completamente dele. Mas sinto que dói nela saber que o pai abusou da própria irmã. Gabriela, hoje, vive a base de medicações e tratamentos psicológicos; minha caçula também faz terapia. Mas esse trauma, com certeza, vai acompanhar minhas filhas pelo resto da vida.

Me culpo todos os dias por nunca ter visto, nunca ter percebido nada. Chego a pensar que ele pode ter começado os abusos como uma punição pela nossa separação, mas não quero mais que ele me dê explicações. Só quero tentar minimizar essa angústia. Hoje, tento ao máximo levar alegria para Gabriela. Agora sou enfermeira e ela quer seguir minha profissão. Amo cada dia mais meu marido, meu parceiro, que segura minha mão em cada crise, em cada momento difícil. Minha filha pode tentar mil vezes, que sempre a trarei de volta. Ela vai superar essa dor toda, vai voltar a acreditar que existem homens bons, que o mundo não é feito só de monstros e que vale muito a pena viver.”

*Os nomes foram mudados a pedido da entrevistada

PORTAL  CBN | COM INFORMAÇÕES DA REVISTA MARIE CLAIRE

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